Chegou do estágio cansadíssimo, que por sinal era sua primeira experiência, arrancou aquela gravata que parecia ter passado o dia inteiro sufocando-lhe, como se já não bastasse os pensamentos fazendo esse papel. Tirou aquela roupa que o deixava com um ar de sério, embora realmente o fosse, mas não tanto. Como era de costume, jogou as vestimentas amassadas em cima da cadeira já abarrotada.Quando tivesse tempo, havia prometido a si mesmo que iria levar tudo pra lavar. Tomou um banho demorado, a fim de esfriar a cabeça.
Após aquele banho, foi até a cozinha de seu pequeno apartamento para preparar alguma coisa para jantar, já que não estava com cabeça para ir nem à outra avenida e gastar alguns minutos no drive-thru, nem para esperar intermináveis trinta minutos e, como sempre, ficar isento de pagar porque o entregador do restaurante pegou um trânsito enorme ou trocaram os pedidos. Preparou um macarrão instantâneo, como quase todas as noites. Comeu em sua própria cama, isso era do ponto positivo de morar sozinho: você pode fazer o que quer na hora que quer, mas pode apostar que isso não era o que se passava pela sua cabeça. Até que preferia que sua mãe lhe desse uma bronca daquelas, e que preparasse um caprichado jantar, mas sabia que isso não era possível. Isso o entristecia. Tudo o que desejava era sentir o abraço aconchegante da mãe, queria que ela acariciasse seus cabelos com aquele amor tão verdadeiro, mas isso também não era possível. A única coisa que poderia fazer era terminar de comer e dormir.
O sono não chegava, via-se cada vez mais desesperado. Já tinha tentado todas as táticas, já tinha pedido a Deus com todas as forças que aliviasse aquele turbilhão de pensamentos que insistiam em surgir. Mesmo assim, ficou a pensar.
Sabia que era ilogismo remoer o passado dessa forma. Tudo bem, não fazia tanto tempo assim, mas já se passaram seis meses, e isso deveria ser tempo o suficiente para apagar aqueles sentimentos. Não que sentisse ciúmes, nem raiva. Era um sentimento de indignação, afinal, ela havia sido sua amada, com ela tinha dividido todas as emoções daqueles longos 2 anos, de todos aqueles dias... E mesmo assim, nunca acreditara em um amor que simplesmente evapora quando os amantes deixam-no esfriar, não, não era esse tipo de amor que conhecia. Não enxergara os motivos das mudanças bruscas na vida de sua namorada... Sua ex-namorada! Ainda não estava acostumado com essa ideia, ainda que ela insistisse em fazer com que parecessem ex-conhecidos. Tudo bem que ela quisesse distância, mas eles ainda estavam no mesmo campus, os dois no sexto semestre, sorte que ele estudava para ser arquiteto, e ela, para ser jornalista. “O que se passava na sua cabecinha? O que se passava naqueles olhos doces? Hein? Por que ninguém respondia? Por que faziam de conta que nada acontecia?”
A noite foi longa. O sono só chegou quando o sol estava às portas. E continuou com as mesmas ideias fixas. Ficava repassando a cena daquele casal tão comum, tão cheio de carinhos. Ele não a desejava como antes, nem queria privá-la de ter outros relacionamentos, mas por que logo com ele? Aquele de quem ela sentia repugnância, embora tenham estudado no mesmo colégio desde adolescentes, aquele era o rapaz mais improvável para ser seu casal, aquele rapaz que não tinha nada na cabeça, aquele rapaz que tinha tudo nas mãos e não levava nada a sério, não era como ele, que tinha que morar sozinho, naquela cidade tão grande e conturbada, enquanto os pais acabavam-se de saudade e quase não podia mandar dinheiro por conta das miseráveis aposentadorias.
Acho que agora, depois de não achar solução, depois de ver os primeiros raios de sol apontarem no horizonte, já podia tentar pregar os olhos pelo menos duas horas antes de ir para a universidade e levar um dia aparentemente normal.
E assim foi, dormiu as poucas horas que lhe restavam, acordou com uma bendita dor de cabeça, tomou um café amargo e aprontou-se para cumprir suas obrigações, como todo santo dia. E é assim que tinha que ser: o tempo não para, o tempo apenas passa e as pessoas na rua não param para ouvir o que o seu coração tem a dizer. Amanhã ou depois, a angústia passará. Daqui a um tempo, tudo será diferente, não como antes, apenas diferente.