domingo, 31 de janeiro de 2010

Apanhador de nuvens

Estava tudo muito calmo e limpo. Não havia obstáculos. Na verdade, hoje não havia trânsito, pelo menos até onde eu podia enxergar, até onde eu podia imaginar. E se houvesse, estaria longe, bem longe. Isso não vem ao caso, vem? Afinal, para mim, o longe e o perto são um equívoco , um paradoxo relativo que não importa, não nesse instante. Bem, além da calmaria e a solidão que agora me convém, havia a cor. Ah, aquela cor! Era inconfundível. Não era como simplesmente olhar para cima todos os dias e deparar-se com um cenário, embora deva haver inúmeras tonalidades que se aproximam daquela e contorçam-se de inveja. Aquilo parecia possuir um certo humor, e, hoje, especialmente, estava sorrindo para mim, um riso um pouco sério, confesso, para lembrar-me de minhas obrigações. E como em uma ironia, queria enfiar-me numa camisa azul da sua cor, bem passada, nem dobrinhas nem amassados, exatamente como encontrava-se: intacto! Eu não riria ceder, não tão sobrecarregado do dia de ontem como eu estava. Tinha que vê-las, poderia até mesmo passar o dia inteiro forçando a vista para contemplar nem que seja um pequeno vestígio de sua presença. Isso não seria fácil, o todo-poderoso estava ali, bancando o malvado, reinando na imensidão azul, despertando em mim uma imensa ânsia de tomar um copo de água com muito gelo, aposto que minha garganta ressecada iria agradecer. Apesar disso, não hesito em esperá-las, matar o tempo à admirá-las é um passatempo incrível, embora para mim seja mais do que isso. Uma paixão, uma necessidade, traz um calmaria diferente e exótica, posso procurar onde for e nunca acharei igual. Acalmar-me, concentrar-me, esvaziar-me de tudo, deixar a estrada livre para a imaginação correr a 100 km/h... Dái elas aparecem, com suas formas, seus contornos, suas cores, umas mais leves, suaves, algodão-doce! Outras mais pesadas, aposto que o homem mais forte do mundo não conseguiria carregá-las, não sem se molhar! Algumas mais exibidas gostam de ser o centro das atenções, tomando conta do campo visual inteiro. E sempre que eu me aproximo, elas em dizem não, até quando eu subo bem alto. Estico bem a mão, e não consigo apanhá-las. Já me disseram que o problema era eu manter os pés no chão, mas eu não vejo saída, nasci sem asas... Será que estou sendo mal-educado? Falei da minha paixão, e não disse quem eu sou! É que elas sempre me deixam fora de foco. Sou um apanhador de nuvens, e gosto disso, apesar de continuar com os pés no chão e nunca apanhá-las. É sempre bom abrir as portas para a imaginação, passar o tempo a admirar algo que está fora do nosso alcance, deixar a emoção percorrer as veias livremente, sem barreiras, isso alimenta a alma.

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